Paróquia Santuário São Judas Tadeu - Amigos do Sopão

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PASTORAIS E MOVIMENTOS SOCIAIS:

ALIMENTAÇÃO PARA MORADORES DE RUA

  

Alunos: Claudenir dos Santos e Rodinei Eiselt

Professor: Fr. Ademildo

 

 TAUBATÉ

2011

 

 

 

1.      INTRODUÇÃO

A atividade caritativa por si mesma anuncia o amor ao próximo e denuncia um estado de necessidade ou sofrimento da pessoa humana por quem se faz tal ação. Também não fazemos caridade por caridade, mas porque mais do que qualquer coisa, como pessoas humanas que somos, sofremos com quem sofre, nos compadecemos e sentimos as dores de nossos irmãos e, à exemplo de Cristo Senhor, não podemos deixar de considerar o outro em suas dores e necessidades mais urgentes, a menos que não queiramos ser chamados de cristãos. Outrossim, Cristo é nosso imperativo, seu evangelho é nosso caminho e nossa meta, nossa inspiração e nossa razão maior pela qual nos sentimos não apenas convidados ou inclinados à ação caritativa, mas verdadeiramente impelidos. Ignorar o outro em suas necessidades mais prementes seria negar a nós mesmos que sentimos e passamos pelas mesmas vicissitudes e carências de quem procuramos ajudar.

A grandeza, a nobreza e a simplicidade da ação caritativa, divinamente inspirada e ao mesmo tempo humanamente impulsionada, não pode deixar de ser considerada. Em razão do alto valor humano, moral e evangélico da caridade, queremos anunciar o bem que o Espírito tem impulsionado através das pessoas de boa vontade em favor de seus pequeninos.

A presente pesquisa quer apresentar alguns aspectos desta ação do Espírito na atividade do movimento “Amigos do Sopão”, filiado e diretamente ligado às obras de caridade do Santuário São Judas Tadeu, situado na Alameda dos Guaiós, 40, no bairro Jabaquara, região Ipiranga da zona sul da cidade de São Paulo.

Para tanto, a pesquisa se divide em três blocos: num primeiro momento propor-se-á a reflexão teológica sobre a caridade e seus fundamentos; em seguida será apresentado em termos concretos como se dá tal ação no movimento já citado e, por último, um espaço midiático, com artigo e fotos que ilustrarão toda a reflexão.

Valer-nos-emos da fundamentação bíblica e teológica, especialmente da contribuição da moral social que, como tal, por certo, tem muito a nos dizer sobre; da pesquisa de campo in loco e dos meios de comunicação, como das redes sociais, onde se tem discutido o assunto, além dos sites relacionados ao movimento.

Esperamos com esta pesquisa, não obstante seus evidentes limites de profundidade reflexiva e fundamentação teórica mais abrangente, mas tendo presente que se trata de apenas um modesto esboço sobre o tema do “Sopão” à nível de graduação e como pesquisa que se propõe a evidenciar o que há de mais notável e urgente no que diz respeito ao tema, responder algumas das questões da moral social para o mesmo, tais como: Quais razões podem ser apresentadas para a ação caritativa na forma de Sopão? Que fundamentos bíblicos podem ser utilizados para justificar tal ação? Qual a importância do movimento “Sopão” para os marginalizados? E para os agentes do movimento? Como cristãos e como Igreja, como entendemos este movimento? – Estas são algumas das diversas questões que são consideradas ao ser tratar deste tema, quais, no delinear da presente pesquisa, haverão de encontrar suas respostas.

Por fim, consideremos ainda um aspecto: da consciência ativa. Que o leitor, ao se deter nestas breves reflexões e tomando consciência da pertinência do tema, não se deixe levar pela vaidade do conhecimento, mas tendo presente que o nível de consciência determina a ação, coloque-se em missão, à disposição das moções do Espírito e se deixe guiar por aquele que é Senhor da história de todos quantos lhe são dóceis.

 

2.      REFLEXÃO TEOLÓGICA

2.1 Fundamento Bíblico

A iniciativa de amar não é humana, mas sim divina: “Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele quem nos amou e enviou-nos seu Filho” (1Jo 4,10ab). Foi Deus que nos amou primeiro, foi ele quem nos quis e nos elegeu, nos chamou e nos fez para si: “não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi” (Jo 15,16a). E a escolha de Deus pelo ser humano é para edificá-lo no amor para seu próprio bem, para que este, como homem de dons e capacidades, encontre em si seu pleno desenvolvimento, pois “a glória de Deus é o homem vivo” (Santo Irineu. Adversus Aeresis, IV, 20, 7).

Ícone do desejo divino de elevar, pelo amor, o ser humano às suas máximas potencialidades que, em suma, é viver em profunda comunhão de amor consigo mesmo, com Deus e com os irmãos, é a Virgem Maria, “mãe de Jesus” (Mt 1,25), “mãe de Deus” (Theotokos, Concílio de Éfeso, 431). Por graça e colaboração humana Maria acolheu os desígnios de Deus em seu Ecce Ancila (Lc 1,38) e empenhou sua vida na causa do bem, fiel à graça de Deus até em momentos verdadeiramente críticos e desafiadores, como ilustra o evangelista João, pondo-a aos pés da cruz em contemplação do mistério, não obstante à dor e ao sofrimento humano que tal evento deve-lhe ter causado (Jo 19,25-27).

Porém, pela fidelidade à graça e a ela cooperado, tendo Maria passado pelo “calvário” e se comprometido ao projeto do Pai e permanecendo unida à seu Filho até o fim, antes mesmo do término do primeiro século da era cristã, é apresentada como Rainha, figura protótipo de toda a humanidade, a indicar não a natureza decaída e pecadora da humanidade, mas o projeto de Deus que criou o ser humano para a vida (Ap 12,1-17).

Com o exemplo mariano compreendemos que toda pessoa é convidada a corresponder ao amor de Deus. E se é Deus que nos ama por primeiro, não amamos gratuitamente, mas porque nos sentimos amados e correspondemos ao amor. Ninguém se sinta amado pode permanecer apenas recebendo-o, mas é exigência própria do amor, doar-se e entregar-se em amor desinteressado. Assim, ao amar estamos à nossa maneira correspondendo e cumprindo o desígnio divino que nos fez por amor e para o amor.

O amor como virtude teologal é como que a disposição concedida por Deus a toda pessoa para amá-lo e nele encontrar sua razão primeira. Assim o próprio criador, por sua iniciativa, dá à humanidade o meio para o encontrar e nele satisfazer-se. Deus, então se torna o único necessário! Essa virtude recebe, também pela bondade de Deus, a graça que, aliada ao empenho humano, é desenvolvida no delinear da vida humana.

Em todo este movimento percebemos com clareza que em tudo Deus age. A iniciativa primeira nunca é do ser humano, mas de Deus. Aliás, se existimos, é por nele e por ele que o somos (At 17, 27).

Desse modo, portanto, fica explanado que é Deus quem nos ama e nos promove, quem quer o nosso bem e nossa edificação e perfeição segundo nossa natureza e condição próprias. Não fomos feitos para a parcialidade, nem para o pecado ou morte, mas para contemplarmos a sua face. Somos destinados para Deus (Jo 14,2).

Munida a humanidade desta virtude, torna-se ela em seu modo mais elementar receptiva do amor e capacitada para amar. Destarte, mesmo aqueles que não crêem no Cristo ou professam qualquer fé, mas movidos por sua índole natural e abertos às inclinações próprias de seus corações, são perfeitamente capazes de ações virtuosas e cheias de humanidade, de amor e dignidade, pois quis o Criador – como temos postulado até aqui –, que a todo o gênero humano tivesse como elemento intrínseco à sua natureza a clareza e o discernimento, o arbítrio e o juízo para conduzir sua existência conforme critérios para o bem e para o mal, para a morte e para a vida – de direito natural e divino. Por esta liberdade e clarividência, jurisprudência e consciência nos assemelhamos a nosso Criador (Gn 1,26), feitos à sua linhagem e raça (At 17,28), isto é, feitos para os mesmos propósitos: à vida!

 

2.2 Jesus Cristo é o Fundamento

Jesus Cristo é nosso imperativo moral, nossa razão mais elementar, nosso estímulo mais fundamental. Enraizados e edificados em Cristo, firmes na fé (Cl 2,7a) e, enquanto unidos a ele e somente nesta condição, podemos, antes de tudo ser, e como decorrência natural e moral fazer conforme seu proceder. Por isso torna-se mister conhecê-lo bem. O concílio de Niceia, em 325 assim O confessou: “Jesus Cristo, o Filho de Deus, gerado unigênito do Pai, ou seja, da substância do Pai; Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; gerado, não criado, consubstancial ao Pai, por meio do qual foram criadas todas as coisas do céu e da terra. Por nós homens e pela nossa salvação, desceu do céu, encarnou e se fez homem, sofreu e ressuscitou ao terceiro dia, voltou a subir ao céu, donde virá para julgar os vivos e os mortos” (Concílio de Niceia I, Symbolu Nicaenum: Denzinger, n. 125). Jesus Cristo, Deus e homem, duas naturezas: tão Deus quanto o Pai e o Espírito, tão humano quanto qualquer outro ser humano, de modo que toda pessoa tem nele plena identificação, tão cheio de Deus e ao mesmo tempo invariavelmente humano: “tão humano que só podia ser Deus!” (Leonardo Boff).

Na verdade, nenhuma pessoa é verdadeiramente humana se não o for como o foi Jesus Cristo, pois nele toda pessoa se identifica, se encontra: “Cristo revela plenamente o homem ao próprio homem” (GS 22) e mais: “por sua encarnação, o Filho de Deus uniu-Se de algum modo a todo homem. Trabalhou com mãos humanas, pensou com inteligência humana, agiu com vontade humana, amou com coração humano”. Jesus Cristo, um homem de relações humanas, de sorriso e choro, de dor e compaixão: passou a vida fazendo o bem! (At 10,38).

É em Cristo que o gênero humano resgata sua máxima dignidade diante de Deus e aprende por seu exemplo o valor da doação de si mesmo: “Já não sou eu vivo, mas é Cristo que vive em mim. Minha vida presente na carne, vivo-a pela fé no Filho de Deus, que me amor e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2,20). Pela vida, exemplo e doação de Cristo, todo discípulo seu encontra sentido diferenciado em, como o mestre, proceder do mesmo modo. Não se trata apenas de razões humanitárias, o que já seria de grandeza e dignidade altamente consideráveis, porém, os cristãos encontram ainda outro sentido, segundo o qual, supera todo entendimento humano, porque é o próprio Cristo.

Aliás, foi ele mesmo quem nos deu o mandamento novo: “Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros assim como eu vos amei”, e acrescenta: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos. Vós sois meus amigos, se praticais o que vos mando” (Jo 14,12-14). Essas palavras foram ilustradas por João no gesto do lava-pés, para indicar que do amor brota doação, entrega e serviço (Jo 13).

São Paulo o compreendeu bem em suas cartas, insistindo também ele no caráter oblativo do amor: “tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”. Neste âmbito já não tratamos mais do amor enquanto virtude teologal, mas numa esfera concreta. Neste sentido, amor não é sentimento, mas atitude. “Quem ama, cuida” (ad tempora).

De fato, o amor nos impele à ação. Não é possível amar e permanecer passível diante da realidade que nos chama a transformá-la. Martin Luther King se tornou famoso por sua proposta de ação, execrando a omissão: “o que me assusta não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons” (discurso I have a dream, 28 de agosto de 1963).

Nesse contexto de não ignorar, mas de proceder de forma a considerar o outro e de nele buscar o rosto de Deus; num rosto humano, a figura do rosto divino, pela ação caritativa procuramos reparar o rosto desfigurado em meio a multidões de pessoas perdidas e abandonadas pela sociedade – consumista e hedonista de nosso tempo – que ignora a pessoa em si para supervalorizar o que ela pode oferecer em termos financeiros.

 

3.      O MOVIMENTO “AMIGOS DO SOPÃO”

3.1  Identidade

A Paróquia Santuário São Judas Tadeu está situada na Avenida Jabaquara, 2682 – Jabaquara, São Paulo – SP. Na Missão Pastoral, Ministério e Caridade está o eixo “serviço” e nele são contempladas: a) Dimensões Pastorais; b) Dimensão Mundo do Trabalho; c) Dimensão Obra Social e Centro de Educação Infantil; d) Dimensão do Serviço da Caridade, Justiça e Paz; e) Dimensão Voluntários. Na parte “d” se insere os “Amigos do Sopão” como um movimento da Paróquia Santuário.

Os “Amigos do Sopão” tem sede na Alameda dos Guaiós, 40, no bairro Jabaquara, da cidade de São Paulo. Foi fundado há 5 anos (13 de maio de 2006) por um grupo de pessoas entusiasmadas pelo evangelho, que ouviram o apelo dos pobres e marginalizados espalhados nas ruas desta cidade.

 

3.2  Atividades

Sua atividade é religiosa e caritativa. Encontram-se para rezar, refletir o evangelho, partilhar a vida. Encontram-se para isso aos sábados, às 13h30, na sede do movimento. Após o momento de espiritualidade, passam a preparar os alimentos que serão distribuídos aos pobres das ruas de São Paulo. A distribuição começa às 18h e atende cerca de 200 necessitados nas noites de sábado. Além do alimento, distribuem cobertores, roupas, brinquedos e bebida. Em ocasiões especiais, cardápio especial, como Natal e Páscoa. Sempre está presente um grupo para partilhar a vida enquanto é distribuído os benefícios, falando de Jesus Cristo, do Evangelho e da vida; ouvindo-os e procurando compreendê-los em suas necessidades.

Suas atividades são feitas a partir da doação de alimentos que doadores entregam na secretaria da paróquia. Os alimentos são preparados por uma equipe de voluntários. Igualmente a distribuição, que é feita nos veículos dos próprios voluntários, que também doam, além de seu tempo e coração, tudo o mais que o movimento precisar!

Apesar de em seu nome ser contemplado o termo “sopão”, o cardápio é feito com alimentos diversos, para o bom equilíbrio e nutrição dos que serão alimentados, como grãos, verduras, legumes, carnes e bebidas, entre outros.

 

4        OS AMIGOS DO SOPÃO E A MÍSTICA DO BOM SAMARITANO

A parábola do Bom Samaritano nos inspira a dinâmica da solidariedade. E é justamente a solidariedade que move a iniciativa dos “Amigos do Sopão”, que procura alimentar aquele que está à margem da sociedade, faltando-lhe quase tudo, inclusive a comida. A realidade desses sofredores a nós fala. É nessa dinâmica que ocorre o diálogo, sendo a solidariedade um desdobramento desde diálogo. Na parábola do Bom Samaritano podemos perscrutar personagens que escuta e que se nega a escutar. Tem gente que só escuta aquilo que quer. E tem gente que escuta exatamente aquilo que falam.

De que os nossos irmãos precisam nos dias de hoje? Citemos um pequeno elenco: comida, água, condições de vida dignas, fé, esperança, alegria, respeito, educação, carinho, amor... Os “Amigos do Sopão” é uma tentativa de sanar algumas dessas necessidades, procurando fazer com que as pessoas se sintam “filhos de Deus” e reconhecer que somos irmãos.

A pergunta que dá início a tal relato parte de um legista: “Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” (Lc 10, 25b). Jesus mostra que ele já sabia a resposta ao perguntar para ele o que está escrito na lei. Então o legista respondeu a sua própria pergunta: “Amarás o Senhor teu Deus, de todo o coração, de toda a alma, com toda a tua força e de e todo entendimento, e a teu próximo como a ti mesmo. Jesus disse: Respondeste corretamente; faze isto e viverás’” (Lc 10, 27-28). Possivelmente não vivendo aquilo que ele respondeu, insatisfeito, o legista resolveu perguntar “quem é o meu próximo”. Aí Jesus conta que um homem descia de Jerusalém a Jericó quando foi despojado e espancado por assaltantes, que o deixaram quase morto caído ao chão.  Hoje ainda há quem esteja caído, sem fé e esperança, nas ruas de nossas cidades. Quem tira delas aquilo que lhes é de direito, que a elas pertencem? E quem as levanta?

O solidário coloca o outro de pé, dando ao próximo uma nova perspectiva de vida, mostrando um horizonte possível até então desconhecido. Como vimos, o solidário sabe escutar a realidade. O egoísta, por outro lado, finge que não houve. Diante do homem caído passaram primeiramente um sacerdote e um levita, homens religiosos. Mas ambos viram e passaram adiante, preferiram não escutar, não queriam se comprometer.  A lei também restringia a atitude do sacerdote e do levita devido à questão da impureza, uma vez que o homem caído poderia estar morto, e a lei não permitia o “contato” com um possível cadáver. Quanto mais longe melhor, do contrário a pessoa que tocasse um cadáver ficava impura.

Talvez o contrário de solidário seja o egoísta. Enquanto o solidário pensa no outro, o egoísta pensa em si. O egoísta assim raciocina: “Esse sujeito foi assaltado. Talvez os ladrões estejam escondidos aqui por perto. E, se estiverem ainda por aqui, pode ser que façam o mesmo comigo. Antes que aconteça algo, vou-me adiante”. O solidário coloca o outro em seu lugar: “O que poderá acontecer com ele se continuar caído ao chão todo machucado? Antes que aconteça o pior, vou socorrê-lo”. Fazer a pergunta certa é comprometer-se.

Um samaritano passava por aquele mesmo local e “escutou” a necessidade daquele homem. Escutou e se comprometeu. Sua conduta é exemplar. Quem diria um samaritano ser exemplo. Quanta ironia... Dele só se podia esperar o ódio. Para um legista, pessoas procedentes da Samaria não podiam ser referências para ninguém.

Entretanto foi o Samaritano que se solidarizou com o homem caído. “Certo samaritano em viagem, porém, chegou junto dele, viu-o e moveu-se de compaixão. Aproximou-se, cuidou de suas chagas, derramando óleo e vinho, depois o colocou em seu próprio animal, conduziu-o à hospedaria e dispensou-lhe cuidados” (Lc 10, 33-35). Além de todas essas atitudes, o samaritano, ainda, no outro dia, tirou dois denários e deu ao hospedeiro e o que gastasse a mais com o seu novo hóspede ele restituiria.  É impressionante a sequência dessa cena repleta de ricos detalhes. Toda a narrativa está em movimento, como expressa nos verbos: chegar, ver, mover, aproximar, cuidar, derramar, colocar, conduzir, dispensar e, por que não (?), “escutar”. O samaritano conseguiu sair de si mesmo para ir ao encontro do necessitado, deixou de ser egoísta, atitude do sacerdote e do levita, para ser solidário. Ele não fingiu que não ouviu. Não fingiu que não era com ele. De fato ele soube escutar. Um coração que soube escutar os fracos batimentos cardíacos do outro coração. 

Ao final desta perícope há uma pergunta que muda toda a lógica da pergunta inicial pronunciada pelo legista. Vejamos que a pergunta inicial é: “quem é meu próximo?”. Parece que Jesus conta esse relato para responder “quem é meu próximo” que, supostamente, se identifica com o homem que foi assaltado e necessita dos primeiros socorros. Mas a pergunta final demonstra que Jesus ampliou o conceito de próximo, havendo ainda a uma alteração do sujeito denominado como próximo. “Qual dos três, em tua opinião, foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?” (Lc 10, 36). Ou seja, a questão é de “quem se fez o próximo”, quem se fez solidário. Condiz com esta pergunta a atitude do samaritano.

Alguém que julga ser cristão não pode viver trancado em um cômodo e egoísta isolamento enquanto, daí, vê a necessidade e a miséria de tantos irmãos e irmãs. A Igreja – como tem por objetivo os “Amigos do Sopão” – está ao lado dos marginalizados, dos excluídos, como nos lembra a Exortação pós sinodal Ecclesia in America, “Caminho para a solidariedade”: “A Sagrada Escritura lembra que Deus escuta o grito dos pobres (cf. Sl 34[33],7) e a Igreja deve permanecer atenta ao grito dos mais necessitados. Escutando a sua voz, ‘ela deve viver com os pobres e participar de seus sofrimentos’” (EA 58). Mais uma vez ressaltemos aqui a relação entre solidariedade e escuta. Através daquele que sofre a solidariedade entra no mundo com seu caráter restaurador, anunciando uma esperança libertadora e confortadora.

Ter uma atitude solidária é muito mais que dar alimento ao necessitado, significa dar-se si mesmo naquilo que se dá, pois no cristianismo o que dá sentido à solidariedade é o amor. Não existe amor onde não há uma entrega sincera. Não damos ao outro aquilo que sobra, mas aquilo que somos. Se necessário, devemos carregar o sofredor nos braços, uma vez que ele pode estar demasiadamente cansado. Isso o demonstra o samaritano quando montou o homem caído em seu próprio cavalo para levá-lo à hospedaria.

Quem sabe escutar é capaz de agir, como o samaritano. Aquele que prefere não escutar passa adiante e segue seu caminho... Em nossa sociedade, muitas pessoas gritam pedindo a nós socorro; outras tantas socorrem e promovem a libertação; outras são completamente indiferentes, pois precisam da miséria de tantos para estar no topo da escala social. A realidade a ser mudada e, por isso, falante, está ao nosso lado, à nossa frente, em todos os lados. Por fim, a solidariedade é mesmo uma questão de escuta. E os Amigos do Sopão pretendem não ficarem surdos ao grito dos fracos.

 

 

5        AMIGOS DO SOPÃO: A TRANSFIGURAÇÃO[1]

"Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha. E foi transfigurado diante deles; e o seu rosto brilhou como o sol e as suas roupas ficaram brancas como a luz. Nisto apareceram-lhe Moisés e Elias, conversando com Jesus" (Mt 17, 1-3).

À véspera da transfiguração, num sábado à noite, com a costumeira garoa paulistana, como de costume, os Amigos do Sopão saíram com vários carros, abarrotados de roupas e cobertores, além do jantar servido à marmitex, sendo oferecido também aos moradores de rua, suco de frutas ou chocolate quente.

A equipe de voluntários Amigos do Sopão existe há quase cinco anos (fundada em 13 de maio de 2006). Funciona como um braço estendido da Paróquia-Santuário São Judas Tadeu, no Jabaquara, aos moradores de rua da cidade de São Paulo. Este braço é santo e forte: como não é um membro isolado, mas tenazmente unido ao Corpo, que é a Igreja, aonde vai leva consigo a espiritualidade de seu Corpo. Também tem fundamento forte, porque está ligado ao Corpo está ligado à cabeça, que é o próprio Senhor. O braço oferece o que tem o Corpo: em primeiro lugar "a esperança - que não decepciona" (Rm 5,5), um olhar de acolhida e valorização da vida. O braço estendido é um auxilio necessário para muitos moradores de rua levantarem-se, saírem dos poucos lugares onde lhes parece possível ficar, enquanto não encontram lugar melhor: em baixo de viadutos, ao limiar das lojas e encostas, cobertos pelo relento e desânimo. O braço estendido levanta, dá alimento, sorri e se pronuncia.
Lembra a todos que, não obstante os sofrimentos - próprios da condição humana -, todos somos chamados a dar a volta por cima, a nos recuperarmos de qualquer crise: o importante é não desanimar! Ninguém foi feito para sofrer. O Criador, em sua insondável bondade nos chamou, por puro ato de amor, à vida. Dele partimos e a Ele retornaremos. Nosso fim último é o próprio Deus e, enquanto somos terrenos, somos chamados à salvação, isto é, à vida bem vivida em todas as suas dimensões: humana, física, afetiva, espiritual. Desenvolver as capacidades dadas gratuitamente pelo criador é tarefa de cada um.

Se por ora passamos por momentos menos bons, devemos ter presente que a esperança fundamenta nossa vida, porque está fundada no próprio Deus. A parte mais difícil de um plano é começar. Aceitar que é possível vencer e "não desanimar, nunca. Embora venham ventos contrários" (Santa Paulina).

Assim, os Amigos do Sopão não levam tudo, nem têm esta pretensão, mas fazem o que podem à medida que lhes é dado fazer, mediante suas possibilidades. Esse grupo que começou há quase cinco anos, timidamente, hoje conta com mais de uma centena de membros: voluntários que preparam os alimentos; organizam os agasalhos e cobertores; que distribuem-nos entre os necessitados; sem contar, claro, com aqueles que, "apenas" vão para conversar, partilhar a vida e os ouvir, para dar e receber sorrisos, um aperto de mão, um abraço, um beijo.

O que neste artigo dissemos é apenas um pouquinho do muito que este grupo faz, entre os inúmeros grupos de assistência social do Santuário São Judas Tadeu. Se você, caro leitor, quer ajudar-nos, seja bem vindo! Reze por nós, e farás muito bem. Se queres, além disso, recebemos doações na secretaria paroquial do Santuário São Judas Tadeu, localizado na Avenida Jabaquara, no. 2.682. Se queres dar mais, seja bem vindo também na preparação do alimento, que é iniciado, sempre aos sábados, às 13h, na Alameda dos Guaiós, 40, à cerca de 200 metros do Santuário São Judas Tadeu. Nosso site é www.amigosdosopao.org, msn: amigosdosopao@hotmail.com

"Então Pedro tomou a palavra e disse: "Senhor, é bom ficarmos aqui. Se queres, vou fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias". Pedro ainda estava falando, quando uma nuvem luminosa os cobriu com sua sombra. E da nuvem uma voz dizia: Este é o meu Filho amado, Escutai-o!" Quando ouviram isto, os discípulos ficaram muito assustados e caíram com o rosto em terra. Jesus se aproximou, tocou neles e disse: "Levantai-vos e não tenhais medo".

Os discípulos ergueram os olhos e não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus. Quando desciam da montanha, Jesus ordenou-lhes: "não conteis a ninguém esta visão até que o Filho do Homem tenha ressuscitado dos mortos" (Mt 17, 4-9).

E os Amigos do Sopão compreenderam a mensagem de Jesus: adoraram-no e, em seguida desceram a montanha e foram aos pobres, afinal: "tive fome e me deste de comer, tive sede e me destes de beber" (Mt 25, 35): é o lema do grupo. 

 

6        CONCLUSÃO

Os seres humanos estão visceral e profundamente interligados. Se há alguém que está sofrendo, todos sofrem. Conscientes disso, os “Amigos do Sopão” querem ser uma expressão da solidariedade da Igreja, Corpo místico de Cristo. Os membros do corpo estão articulados entre si. Unidos a Cabeça, os “Amigos do Sopão” tem compaixão pelos irmãos e irmãs que padecem das necessidades básicas para se viver.

Esse projeto, braço do Santuário São Judas Tadeu, atrai tanto adultos quanto jovens. Pessoas das mais variadas faixas etárias são atraídas e se unem para estender o coração e o braço ao próximo. Constata-se, portanto, uma sensibilidade social que atravessa gerações. Cristo, que nos fez filhos do Pai e irmãos um do outro, ainda tem muito para dizer à sociedade. Ele continua a impulsionar o ideal de muitas pessoas. Jesus continua a abrir os olhos de muitas pessoas para a realidade social injusta que nos cerca.

A Igreja é carismática. Nela há lugar para todos os filhos e filhas de Deus. Os “Amigos do Sopão” são apenas uma humilde expressão da riqueza da Igreja. Servindo aos pobres de rua eles expressam um modo de ser Igreja que se compromete com quem passa fome...


 

[1]Publicado no site dos “Amigos do Sopão”. Autor: Frater Rodinei Eiselt, scj. Acesso no dia 16 de novembro de 2011.

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

 

Bíblia de Jerusalém, Língua Portuguesa. Paulus, 7ª. Edição, São Paulo, 1995.

 

Compêndio do Concílio Vaticano II: “CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA GAUDIUM ET SPES” sobre o mundo contemporâneo. São Paulo: Vozes, 12ª. Edição, 1968, pp. 361-407.

 

JOÃO PAULO II, Papa. Ecclesia in America: Exortação apostólica pós-sinodal. São Paulo: Loyola, 1999. 87 p.

 

Site dos “Amigos do Sopão”: http://www.amigosdosopao.org/Noticia.aspx?pId=13&nId=165

 

 

 

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